Se você tiver um passe, me dê. Mas se for teu último passe, teu único passe. Eu queria saber guardar todos olhos na minha memória, como os últimos passes de ida, sem volta. Queria saber ouvir todas as bocas gritando segredos íntimos.
Eu queria saber como recolher todas as lembranças do mundo, serví-las num prato- comê-las uma á uma, mastigá-las, digerir as vidas todas. E por fim deitar a sesta, farta de tanto sonho na barriga.
Eu queria ter conhecido todas as pessoas.
Mas e se eu pudesse alcançar todas as histórias, e se eu pudesse guardar cada sopro de vida ao pé do ouvido, não quereria eu não ouvir mais nada? Desistir de saber das coisas, quando souber de todas?
Talvez eu preferisse ficar sozinha com meus pensamentos, que hoje me aborrecem e me entediam.
Talvez eu quisesse desconhecer todas as pessoas para tentar me conhecer direito.
Mas é que me parecem caber mais as outras pessoas em mim do que eu mesma.
Passagem Urbana
E os pardais estremeciam as penas
Voavam juntos, em um arco
Tão insanamente paralelos
Tão instintivamente pássaros
E passavam o breu nas janelas
-Fui um dos pardais, também.
Mas de repente baixando os olhos
Na negritude do abismo
Vi pombos espalharem piolhos.
Brigando a bicadas pelo milho seco
Com olhos esbugalhados de pedinte.
-E me senti tão pombo.
Voltei as órbitas em direção á porta
E se fixaram minhas pupilas trêmulas.
Naquela fresta do entreabrir
Cabiam tantos mil segredos.
Eis que ela bate impiedosamente
-E fui também porta.
Mas eu...
Que sou tão meramente eu,
Cuja essência é simplesmente
A inexistência;
Cujos ossos fatigados
Pesam mais que toda a cabeça?
Existo, portanto não sou.
Porque se fosse o que seria
Não seria o que melhor poderia ser,
Gosto do que sou,
Mas não gosto de ser, todavia.
-Eu continuo não sendo, antes de ser.
Delírio em flor
Seus dentes estão podres
De filtrar poluição.
Seus olhos se enegram e dilatam
De enxergar na escuridão.
Sangue corre errado nas veias
Ossos se partem em colisão.
Estampado na cara um riso tosco
Impregnado de uma demente ilusão.
Na pele coragem desmedida
Pra destilar a ira do Nosso Senhor.
Um corpo trocado, uma alma errada
Um tiro no seio, um cala-te dor.
Lábios costurados com linha preta
Salgados de lágrimas, carne sem cor.
Quem vai neste trem não sabe
Que é mais cheio de mágoas o peito de trovador.
Entre de sorrateiro por debaixo do portão
Engatinhando um escuro imenso- solidão.
Isso chama se alma, caminho de brasa
Pés descalços que queimam- explosão.
Cuspa escarre e grite seus nomes
Bombardeio das bocas de canhão
Cole o rosto na janela, arregale seus olhos
Engula a própria razão.
Cruz e certidão
Um impasse de nascer
Um nome e uma função
Teu direito de morrer
Derrame uma lágrima que seja semente
Na terra faça uma árvore crescer
Te parece carma maldito quando olha o infinito?
Não queira saber da vida- só lembre de viver.
Acabei de terminar esse :)
Oração
Eu piso no desprezo
Eu me humilho
Antes que alguém o faça
Que coloque a venda os meus miolos
Por um preço módico, quase de graça.
Adeus, mundo!
Uma dor quase doce
A navalha bamba em minhas mãos
O prazer de sentir controle
Desenhando rubros crucifixos
Rente a pele mole
Jorrando a cura pelos pulsos.
Que júbilo esse líquido
Quente, vermelho
Frio, preto
Que seca nos braços
Como as chagas de Cristo
Se a si tivesse condenado.
Encostado na parede
Sem pregos nas mãos
Sem vinagre para a sede
Sem vinho, sem pão
Espero o mar aberto
Que um dia meus pés cruzarão.
Mas é preciso o penar
Antes do paraíso
E eu nado em meu mar morto
Onde ainda me sinto vivo.
E firmo os pés tortos
No último passo no solo.
Alimentem-se vermes
Que então terei servidão
Farei parte de um sistema perfeito
Serei para todos ar, terra
E nas nuvens eu rirei de tudo
De ter sido tão pouca coisa no mundo.
E pra comemorar um início, como sempre, deve ser falado algo, certo?
não.
Bom, está aí o primeiro poema que vou publicar por aqui.
"Também choveu por aqui
As pedras se alojavam no peito
Ensurdescendo os tímpanos
Na cartilagem que estalava
Dentro das entranhas impuras
Percorrendo as vísceras escuras
Limpando o corpo manchado
No desgaste dos ossos
Nas profundezas do ventre
Também choveu por aqui
Molhando os cabelos ralos
Desfazendo as roupas gastas
Derretendo os pés rachados
Corroendo as unhas até a carne
Fazendo da pele tecido puído
Caindo com os joelhos feridos
Sobre o chão frio, gasto.
Se comeu pó, se fez pó.
Sucumbiu ao carma maldito
Que levara entre as décadas
Escorrendo dos olhos
Palpitando nas veias
Roncando nos fundos febris
De uma sistema bruto
Condenado á lei do mundo.
Já tonto, vendo aos seus pés
Os filhos a chorar não sei o quê
Da falta de pão, da falta de vida.
Deita no pavilhão a cabeça pesada
Os braços dilacerados abraçam o nada
Cerrando nos punhos um pai nosso
Para não mais acordar.
O sol parece piscar alegre
Quando passam entre seus olhos
Sapatos brilhosos afivelados
Fazendo sombra em sua fronte
Ameaçando pisar-lhe o tronco
Levantando o pó ás narinas
Num zumbido surdo sincrônico.
Seu peito roto é fruto das escolhas
De quem não lhe diz respeito
Que pesa em seus ombros cada vez mais
Com uma hipocrisia quase sólida
Que repete aos meus ouvidos
Que a vida não é unidade monetária
Não é uma corda gráfica
Dízimas periódicas que não cabem em calculadora.
E que não cabem em sofrimentos diários
No aumento do arroz, na inflação
Não cabem nas dívidas, nos aluguéis
Não se espalham em donativos
Não se sustentam em caridades
Não se agrupam como bois
Não são cubos que se montam
Não são castelos que se sopram.
São inomeáveis, intocáveis, intangíveis.
Infinitas linhas imaginárias
Que não foram criadas
Não são placas programáveis
Não cabem em palmas de mão
Não são da conta de ninguém
Não pertencem a quem convém.
Que será pois a vida?
É o mistério mais absoluto
Mais digno de atenção
Que está mais vivo nas montanhas
Nas frestas, nas casas de insetos
Nas folhas uivantes
A diferença é a crueza natural,
Nos semblantes oculta em poeira cinza.
E voltando ao corpo moribundo
Caído ao relento
Sentimos muito
Sentimos muito pouco."
Só pra anuviar o terror do meu existencialismo barato. (L)